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Teresa de Jesus e El Greco



Se quisermos obter uma ideia sobre a mística de Teresa é preciso que lancemos um olhar não para os teólogos, mas para a arte de El Greco. Teresa não exerceu nenhum influxo sobre este artista, mas a arte dele oferece um admirável paralelismo com a mística de Teresa. As figuras mais assombrosas de El Greco nasceram em Toledo, apenas algumas quadras distantes da casa onde Teresa residira naquele tempo durante meio ano. El Greco e Teresa nunca se encontraram pessoalmente; não possuímos nenhuma referência a um colóquio entre os dois. Não obstante, as pinturas flamejantes, metafísicas de El Greco exprimem, em misteriosas cores, o que Teresa revestiu em palavras. Numa e noutro o ser humano se dilui num gesto que tende para o céu, transformado que foi numa chama viva, anunciando uma realidade supra-racional.



As pinturas de El Greco não podem ser comparadas com as pinturas dos grandes artistas espanhóis; somos tentados a dizer que não procedem do atelier de um pintor. Elas procedem de um país mais distante, desconhecido, e são, como as palavras de Teresa, visões deslumbrantes de uma alma estática. Por isso actuam sobre o contemplador como um apelo supra mundano, pedindo uma resposta. Durante séculos os historiadores da arte menosprezaram as pinturas de El Greco, eram pinturas bastardas, demonstrando assim, a mesma incompreensão da teologia da Inquisição em relação a Teresa.
























As figuras estáticas e distendidas de El Greco transcendem intencionalmente a realidade comum, ostentando febrilmente os seus êxtases, não muito diferentes dos de Teresa de Jesus. Artista e monja falam a mesma linguagem da mística, uma linguagem que o pensamento pragmatista não é capaz de entender, porque nada sabe da eternidade.
Não foi por acaso que ambos foram declarados "loucos" pelo homem mediano. Teresa e El Greco viveram uma realidade mística voltada para o céu e interpretavam a partir dali os acontecimentos terrestres.

Teresa de Jesus - 2



Teresa fez da mística o tema principal de suas obras, razão por que se tornou "um marco na história da mesma". A vida mística não foi para ela apenas teoria e, correspondentemente, também não escreveu tratados. Muito sabiamente ela dizia da mística: "Como se há de entender isto, não o sei; justamente este não-entender é que me causa grande alegria". Naturalmente, Teresa tinha conhecimento da teologia mística, visto que por vezes fez referências a ela; mas, examinando mais de perto a questão, para ela sempre se tratava da experiência. Defendeu uma mística expressamente vivencial e nunca lhe interessaram meras afirmações teológicas. Não se baseou em teorias, mas descreveu suas próprias experiências. Sem experiências particulares não existe vida espiritual genuína. Só a prudência não basta. Teresa não excluiu a reflexão; assinalou-lhe, porém, apenas o segundo lugar. Mística significava para ela, em primeira e última linha, experiência de Deus, que lhe coube em dom durante a oração. É nisto que consiste a credibilidade de seus escritos.

"É preciso que te busques em mim e a mim em ti" cantava Teresa; na autobiografia, o Senhor lhe disse: "Não procures encerrar-me em ti. Encerra-te em mim!" Nesta advertência significativa, documenta-se a conversão carmelitana. Quem está ocupado consigo mesmo, quem se fixa constantemente sobre a própria pessoa encontra-se numa rotina infindável. Não se deve procurar a Deus no minúsculo eu, mas inversamente, o homem deve encontrar-se em Deus; com isto supera o subjectivismo em todos os seus matizes. A conversão do eu a Deus é uma ajuda maior do que pode oferecer qualquer psicologia. Se entra na presença de Deus e vive nela, a alma do homem torna-se diáfana e luminosa. Por isso, a mística de Teresa não se movia na onda de sentimentos alternados, mas consistia no cumprimento da vontade divina; tinha, por conseguinte, chão firme por sob os pés. "O mais alto grau da perfeição, evidentemente, não consiste em consolações interiores e em sublimes arrebatamentos místicos, nem em visões e no espírito da profecia, senão unicamente nessa conformidade de nossa vontade com a vontade divina". Como todos os místicos, Teresa usou certas parábolas para descrever o indescritível. A mística acha-se vinculada a uma linguagem de figuras e não a conceitos. O seu conteúdo é uma "história de amor" com Deus. Teresa comparou a alma com um castelo com diferentes moradas. Costumava dizer que no nosso interior temos um mundo.

Admirável é o conhecimento inteiramente extraordinário que ela tem da alma. Em todas as épocas, os homens reflectiram sobre a alma, a começar pelo obscuro filósofo Heráclito de Éfeso: "Vai e não acharás as fronteiras da alma, mesmo que andes por todas as estradas; tão profunda é a sua natureza", até a Realidade da alma de C. G. Jung, cujos conceitos se transformaram em lugares-comuns. Teresa conhecia tudo isto de maneira diferente; talvez se possa afirmar que ela o sabia até de maneira mais grandiosa e expressiva. Para Teresa, o importante era a alma; tomar consciência de sua alma foi uma de suas experiências mais profundas. Nos tempos modernos, o homem corre o risco de perder a sua alma e, justamente por esta razão, Teresa adquire uma grande actualidade. Ela fez a experiência do maravilhoso da alma. E isto causou-lhe uma profunda admiração. Lendo seus escritos, chegamos a conhecer algo do mistério da alma, e doravante não é mais possível ignorá-la. No pensar de Teresa, a alma compreende muito mais do que comumente imaginamos. Porém, "o progresso da alma não está no muito reflectir, mas no muito amar". De acordo com esta compreensão profunda, o mais importante para a vida mística não é a reflexão, mas o amor. Para Teresa é importante o amor a Deus; para ela, a mística não consiste em especulações filosóficas. Quanto mais uma pessoa ama, tanto mais abrangente se torna sua alma. Teresa opunha-se decididamente a uma uniformização da alma. "Como no céu há muitas moradas, assim também há muitos caminhos que levam a ele".
(Extraído da obra "Teresa de Ávila – Teresa de Jesus", de Walter Nigg, Ed. Loyola)

Teresa de Jesus - 1

Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus (Gotarrendura, 28 de março de 1515 — Alba de Tormes, 4 de Outubro de 1582) foi uma religiosa e escritora espanhola, famosa pela reforma que realizou no Carmelo e por suas obras místicas.

Teresa não foi a primeira mulher que teve experiências místicas. Antes dela, Hildegard de Bingen, Mechtild de Magdeburgo, Catarina de Sena e mais algumas outras conheceram-nas igualmente por experiência própria e nos deixaram o relato das mesmas em seus escritos. No caso da grande Teresa, porém, a situação era muito diferente. Da sua parte, ela não sentia nenhuma necessidade para assentar por escrito as coisas experimentadas. Não tinha ambições de escritora, nem pensava em manifestar externamente o que se havia passado no seu interior.

Pelo contrário, foi o confessor que lhe ordenou escrever as suas experiências. Ela o fez a contragosto e julgava que deviam deixá-la tocar sua roda de fiar, visitar a capela e observar a regra, como o faziam as outras monjas, já que não tinha talento para escrever. Não obstante, ela obedeceu, mas em relação às suas predecessoras julgava dever dizer: "Essas sabiam o que escreviam, eu, porém, Deus o sabe, realmente não sei o que estou escrevendo!" Talvez tenha escrito em estado de transe; seja como for, ela possuía o raro dom de escrever. Por isso, muitas vezes é representada com a pena na mão e com uma pomba, símbolo do Espírito Santo. Sentava-se à escrivaninha e, muitas vezes, a pena deslizava tão rapidamente sobre o papel que ela mal podia segui-la. De quando em vez, ela se queixa de se ter afastado do assunto. Escrevia no parco tempo livre de que dispunha; escreveu em estado precário de saúde e geralmente só à noite, mas escrevia de fôlego. Acontecia muito raro ter de riscar uma palavra ou ter de acrescentar uma correcção: seu espanhol é impecável.

As duas obras, Caminho da perfeição e Castelo interior ou moradas, não podem ser lidas como se lê uma poesia! Não são literatura no sentido comum do termo, porque não se destinam à distracção nem à mera informação. A compreensão dos seus escritos está ligada à prática: tornam-se incompreensíveis a todo aquele que não os toma como instrução para a vida. Ildefonso Moriones reconheceu-o muito bem, quando disse que "ela mesma se transformou no livro vivo".

Como sempre, as exposições de Teresa contêm valiosos conselhos. Ela era uma mulher de rara prudência, que tivera uma rica experiência em sua vida e soubera assimilar espiritualmente as suas vivências. Por esta razão, foi capaz de orientar as pessoas e dar-lhes conselhos oportunos. Em certa ocasião, deu o seguinte conselho a uma pessoa propensa à depressão: "Trate de, às vezes, passear tranquilamente ao ar livre, quando for acometida por esses sentimentos opressivos; por que eles dificultam a sua oração; é preciso que lutemos contra as nossas fraquezas de modo que a nossa natureza não fique prejudicada. Também esta é uma busca de Deus ... e é necessário que conduzamos nossa alma suavemente." Na orientação espiritual, Teresa não sugeria apenas passeios salutares, mas inculcava às suas monjas também a humildade. Humildade significava para ela estar na verdade. Indignava-se quando encontrava pessoas que não compreendiam a dignidade da própria alma. Era contra toda e qualquer violência que escraviza a alma e achava necessário certo grau de amor ao corpo, para que, da sua parte, fosse capaz de servir à alma. Uma alma não deve ser coagida nem podada sob medida, porque este modo de proceder só pode produzir uma existência truncada. "Porque, se falamos da alma, devemos combinar sempre com ela os conceitos de plenitude, amplitude e grandeza, nada disso é exagerado, porque a alma é capaz de abarcar muito mais do que nós somos capazes de imaginar". Este é um modo digno de falar da alma! Não se pode encontrar nela nada de rançoso, angustioso ou acanhado. Teresa sentiu toda a riqueza, amplitude e grandeza da alma; seu coração se alargara de verdade!